sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Uma mulher antiquada

Jean Baptiste Chardin - "Women taking tea" (1735)
 
Vermeer - "Women in blue Reading a letter" (1663)
 
Rembrandt - "Old women Reading" (1675)
 
 
"É claro que a sexualidade é essencial, mas também é fonte de sofrimento e perplexidade. O mesmo ocorre com o capitalismo, que é uma mistura igualmente confusa de coisas muito impressionantes e bastante insatisfatórias."
 
- Alain de Botton
 
 
Todas as vezes que me sinto asfixiada pelos excessos da vida moderna, recorro às pinturas dos grandes mestres como Rembrandt, Chardin e Vermeer. Gosto de olhar especialmente para as pinturas que mostram as mulheres daquele tempo em atividades caseiras bem simples, como lendo, tomando chá, cozinhando, escrevendo, arrumando a mesa da sala, entre outras situações desprovidas de glamour.
 
Eu sei que é bobagem sentir nostalgia de um passado tão distante, que provavelmente esteve cheio de conflitos, dificuldades e problemas diversos, mas não consigo deixar de me sentir atraída por essas imagens. Existe algo dentro de mim que não se modernizou. Passeio pelo mundo atual, vivo dentro dele, usufruo de muitos dos seus benefícios e confortos, e pareço fisicamente com alguém do meu próprio tempo. Mas bem lá no fundo, existe uma mulher um tanto antiquada morando dentro de mim.
 
Acho que sou a única pessoa que conheço que abriu mão do telefone celular e nunca mexeu no whatsapp. É claro que sou tecnologicamente conectada, possuo blogs, e-mails e websites, sei criar coisas incríveis no power point, produzo vídeos, realizo cursos online nas maiores Universidades do mundo, faço download das músicas que gosto de ouvir, dou conferências online, converso pelo Skype, e leio e-books diariamente. Mas quando desligo o computador, não gosto de ser encontrada ou rastreada por pessoas neuroticamente dependentes de seus Iphones.
 
Quando eu era mais jovem, ficava fascinada com a vida adulta. Acabei amadurecendo mais cedo do que devia, aprontei tudo o que se possa imaginar, agarrei a liberdade com os dentes, namorei, experimentei, viajei, me arrisquei diversas vezes e me equilibrei sem medo nas esquinas do excesso. Porém, com a idade, comecei a perder o interesse pelas luzes coloridas das lojas comerciais, passei a achar meus amantes um pouco desprovidos de atratividade intelectual, perdi o interesse pela vitrine de doces, e aos poucos me refugiei num mundo paralelo e um pouco obscuro: o da leitura dos clássicos.
 
A primeira grande obra que me lembro de ter lido foi o livro "O Egípcio" de Mika Waltari, que peguei emprestado na estante do meu avô. Era um livro grosso, 600 páginas de uma erudição difícil e cativante. Confesso que não compreendi muito bem a leitura, pois na época eu tinha somente uns 12 anos de idade. Mas o impacto daquela história ficou gravado em mim. Depois dos vinte e poucos anos, já um pouco farta das aventuras loucas da juventude, fui em busca de mais literatura forte. Li então "O Etrusco", também do Mika Waltari; A Odisseia, de Homero; e o Fio da Navalha, de Somerset Maugham.  Todas essas histórias me tiravam do meu tempo presente e me apresentavam a realidade de um mundo perdido que me parecia muito mais rico e interessante do que a minha contemporaneidade.
 
Depois da literatura percorri o mundo da arte. Adoro os Impressionistas, mas quem realmente mexe comigo são os holandeses e os italianos do Renascimento. Vermeer tem o poder incrível de restaurar completamente o meu equilíbrio emocional. Várias de suas pinturas me acalmam profundamente. A reação que tenho diante dessas telas é tão visceral que me parece impossível explicar com palavras. Há algo em Vermeer que me faz desejar morar numa fazenda, sem telefone, conexão wi fi e eletricidade. É como se o grande arquétipo de Deméter se apoderasse completamente de mim, e sinto vontade de beber leite mais fresco, tomar banho de rio e apagar um lampião na hora de dormir.   
 
Chardin é uma das minhas grandes paixões secretas (possuo várias que não me atrevo a revelar, mas essa vale a pena). A pintura de Chardin traz de volta algo ancestral. É como se suas telas falassem diretamente com a minha primeira encarnação, ou com meu lado mais primitivo e inocente. Sou quase capaz de sentir o cheiro da cozinha das telas de Chardin e ouvir os conselhos das mulheres mais velhas alertando as mais jovens sobre a ilusão da paixão.
 
Aos 37 anos sinto-me, às vezes, uma velha. Já não me atraem tanto os produtos industrializados do mundo, os homens de barriga tanquinho, as obras de arte abstratas, o funk, a liberalidade sexual do século 21, a imortalidade científica, a futilidade da boêmia inexpressiva, o papo furado, as roupas ultra sexies das garotinhas, o casamento aberto, a pornografia, os carros de luxo, os modulados decorativos, a dose de uísque, o barulho urbano.  
 
As vezes sinto vontade de me refugiar numa das telas acima, e tomar chá com essas mulheres que viveram numa época totalmente diferente da minha. Queria poder simplificar ainda mais a minha vida, ler livros de feitiçaria xamânica, resgatar o contato com as deusas do Olimpo, ser menos divina e mais humana.
 
Quando falo sobre essas coisas com algumas pessoas mais próximas, sou sempre mal entendida. Me acusam de ser falsa puritana, dizem que suspeitam da minha "pinta de anjinha", e acreditam que tudo o que eu digo é completamente improvável. As pessoas não entendem que o excesso de liberdade desperta o interesse por certos limites. Quando se é completamente livre - e se consome essa liberdade por anos a fio sem nenhum tipo de restrição - se perde o interesse. É como a criança que possui pais totalmente permissivos e começam a admirar os pais do amiguinho que impõem certas regras.
 
Eu sinto que com o passar do tempo meus interesses mudaram muito. É lógico que não sou nenhuma santa - ainda possuo momentos de ira, de ciúme, de rancor, de vaidade -, mas acho que já iluminei muitas das minhas sombras, e o acúmulo das experiências forjou em mim um desejo genuíno pelas coisas mais simples.
 
Quando passo os olhos pelos objetos do meu quarto, percebo que minha alma pertence a outro tempo. Com exceção do notebook, todos os meus objetos poderiam ser reproduzidos nas telas de Vermeer ou Chardin. A simplicidade dos meus móveis, da minha estante de livros e do meu antigo armário de madeira, me permite criar uma conexão mais profunda entre a mulher antiquada que habita em mim e eu.
 
Estou ciente de que ser antiga num período moderno me trará muitos problemas, a começar pela descrença dos que estão ao redor. Mas entre a simplicidade natural de Chardin e o caos colorido da mídia atual, escolho mil vezes a primeira opção.  
 
- Tamara Ramos
Setembro/15
 

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