domingo, 2 de agosto de 2015

Na própria pele



Sirenes tocam nos portões dos meus porões abandonados.
Possíveis regressos ao poço antigo, revestido de barro e desapontamentos.
As paredes da casa vazias, sem retrato, sem cores, sem tom.
Por entre escadas e escombros retiro obstáculos do caminho, como se pedras de Andrade fossem.
Revisito o templo interno, acendo velas em oração.
Multidão mascarada ensandecida, à porta da frente gritando NÃO!
Começo a retirar estilhaços fincados ao corpo, balas perdidas de outros amores vãos.
Fui sempre além da ortografia, descarregando a geografia em mapas de estranhas fronteiras.
Dei mais do que recebi nos dias santos padrões.
Fiz confissões, levantei bandeiras tardias, abracei causas inúteis em vã contemplação.
Talvez algo a mais adormeça no jardim do meu vestiário, uma paz tranquila, um aquário vivo, algum tipo de chão.
Fiz tudo aquilo que não queria, descumpri promessas, assassinei sonhos diurnos.
Maltratei amantes internos largando a mim mesma sozinha e sem direção.
Queimei livros de endereço, celulares e blocos de notas.
Comecei do zero mais de uma vez como um artista que se recria diante de telas brancas.
Hoje sou mais de uma, sou milhares de aspectos reluzentes refletidos no espelho de outras pessoas.
Mas não mais do que a sombra oculta de um mistério maior que aos poucos se revela.
Na própria pele sinto o sangue correr por grossas veias de orgulho e medo.
As dores de um parto difícil marcadas no ato de um renascimento.
Oceanos e desertos cruzados como se horas de voo anulassem tormentos.

Lancei-me então numa jornada peregrina, um cantil d'água, um apontamento.
Só, sempre só, percorrendo estradas sinuosas em busca de cura em lugares distantes.
Um oásis em meio ao deserto da minha vida se iluminou ao longe.
Água fresca da fonte, um culto cristão ortodoxo, um amor tardio.
Cartas de tarot, conselhos de Confúcio, orações que desvendam o destino.
Mil bruxas consultadas num sabá secreto realizado entre arbustos noturnos.
Toda a negatividade descongelando em cristais de oito pontas, brilhantes como diamantes em processo de lapidação divina.
Uma poção mágica batizada pelo vento do norte, abençoada sob o luar de um verão estrangeiro.
Um canto de amor em homenagem a Morgana, o livro vermelho das almas vivas lido alto para  breve esquecimento.
Encontrei um abrigo.
Encontrei um amigo.
Um refúgio para aliviar o peso de uma grande missão.





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