domingo, 16 de agosto de 2015

A síntese do paradoxo


 A SÍNTESE DO PARADOXO
 
 By Tamara Ramos
Do livro "Vida Forasteira - Antologia Poética 2000-2010
Disponível em e-book pela Amazon

 
 
Ah! Eu amei.
Amei intensamente os vales da cidade proibida,
naveguei por oceanos fundos em rotas azuis,
senti o corpo queimando pela chama de eterna fonte,
e bebi a água do solo com sede infantil.
 

Ah! Eu odiei.
Odiei os homens de preto a inventar conflitos,
os sons da guerra do Oriente a trovejar no Ocidente,
os campos cobertos de órfãos,
as fugas covardes dos membros da política indecente,
e o sol mais quente a derreter geleiras de extremos.

 
Ah! Mas eu também amei.
Amei a frota de paz que combateu a guerra santa,
amei aves de rapina a levantar voos mais altos,
campos de milho a acalmar a fome humana,
a luz da manhã aquecendo corpos juvenis,
e a água límpida de algumas fontes.
 

Ah! Mas eu também odiei.
O tempo corrido do mundo moderno,
a luta pelo dinheiro traiçoeiro e fútil,
a água suja dos rios poluídos,
a maré de crente a desdenhar o irmão.

 
Amo e odeio porque sou humana,
quente e fria como as tardes do inverno polar,
levanto e derrubo turbilhões de profecias incertas,
e me deixo levar pela promessa de um tempo melhor
que jamais amanhece.

 
Carrego em mim altas temperaturas úmidas,
e a fé inabalável na colheita de ontem.
Sou humana, urbana,
capaz de amar e odiar com o mesmo fermento tosco,
capaz de ungir e destruir,
mas, sobretudo, capaz de amar mais,
uma vez mais,
a cada gloriosa manhã.


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