segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O QUE SEI EU DAS LONGAS NOITES DE VERÃO?




O QUE SEI EU DAS LONGAS NOITES DE VERÃO?

Tamara Ramos

 
O que sei eu do oceano e das longas noites de verão?
O que sei eu do coração do poeta aflito?
Eu, que poeta sou,
e que interpreto mal a aflição do meu próprio coração?
 

O que sei eu das longas noites de inverno
na superfície branca dos desertos longes?
Eu, que também habito a noite sem lua
da cidade onde não nasci,
e mal sei do céu extravagante que ilumina a minha aldeia.
 

O que sei eu de cavalheiros que habitam
planícies distantes,
que montam cavalos de gelo no litoral glacial de outros montes?
Eu, que dia após dia caminho à margem da vida,
e mal sei do que há para lá da estrada velha.
 

O que sei eu da artilharia das guerrilhas de outros continentes,
do atalho inimigo que sufoca a fé?
Eu, que de versos ocupo meus dias frívolos,
e que batalha alguma jamais venci,
sendo longe o meu proibido caminho.  .
 

O que sei eu do que sente por mim?
Eu, que mal me aguento,
que nunca me ocupo do espelho de casa,
que me levanto só,
sem nada novo a dizer.
 

O que sei eu de estranhos poetas e tintas frescas
que nunca se molham?
Nada sei do que há morto em mim
o que descama,
nem da pele que troca quando adormeço.
 

O que posso saber daquilo que nunca vi?
O que posso além de brotar palavras ocas
no papel virtual que manipula a loucura
que há mais tempo mora em mim?


(Poema retirado do livro VIDA FORASTEIRA - Antologia poética 2000-2010
Disponível em ebook pela Amazon)

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