terça-feira, 2 de setembro de 2014

Auto-retrato

 
 
Tentando dar forma a cada pensamento abstrato, me perco no labirinto das minhas ideias. Queria eu poder botar limites nas minhas fronteiras. Escrevo livros, viajo, coleciono palavras, troco de roupa, amo e odeio sob o sol inclemente de meu país brasileiro. Corto o cabelo, vou do preto ao louro e do louro ao preto. Crio projetos ambiciosos, sacrifico o tesão pela razão, fico abstêmia. E você segue por aí bebendo o tempo em silêncio, enquanto eu me mato em busca de algum sentido ou uma frase de efeito. A tal mala vermelha já está ultrapassada e preciso arranjar outra se quiser seguir em frente. Amsterdã, Paris, Bruxelas, me aguardem. Buenos Aires é pouco para quem não se satisfaz com nada. Vivo da lembrança de um passado falido. Estava na cara que o futuro era um risco. Mas pelo menos sempre sobra um pouco de amor e um maço de cigarro mentolado pra amenizar a angústia. Sou só, estou só, vivo só, mas você não acredita. E essa injustiça me vira do avesso. Ainda tenho um caminhão de coisa pra dizer, porque repertório de poeta jamais se esgota. Mas acho que meu discurso não é capaz de mudar o rumo das coisas. Minhas palavras não são mais suficientes. Meu amor não basta. Minha casa interior é pequena. E mais do que isso, um pouco além disso, pensar demais sempre me arrasa.  

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