quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O BRASIL ALÉM DO SAMBA



 
Sou filha de um país multicultural e repleto de contradições chamado Brasil. Na minha árvore genealógica podem ser encontrados espanhóis, africanos, portugueses, índios e italianos. Entre os amigos que possuo no Facebook, há ingleses, noruegueses, japoneses, coreanos, suíços, portugueses, italianos, alemães, canadenses, americanos, africanos, franceses e italianos. A maioria nascida ou residente no Brasil. A imigração no Brasil teve início em 1530, apenas trinta anos após a descoberta do país. Portanto, somos miscigenados desde o início da nossa História. A população brasileira é um misto de muitas culturas. Um mosaico colorido e rico unido por uma língua comum, mas não exatamente pelo mesmo gosto cultural.

Eu sou uma brasileira que não escuta forró, não sai em escolas de samba, não gosta muito de praia, detesta corrupção e tem pavor de violência. Quando viajo pela Europa, ouço comentários estranhos dos guardas na alfândega. Quando abrem meu passaporte e olham a minha foto, dizem assim: “Tem certeza que é brasileira? Você não se parece com uma.”

Mas esses comentários me fazem estremecer. Qual seria a cara de um cidadão brasileiro? A desconfiança dos guardas da alfândega me faz refletir sobre um tema importante: por mais quanto tempo os brasileiros serão vítimas de estereótipos? Se eles acham que não pareço brasileira, é porque certamente têm um ideal bem definido relativo à nossa identidade e aparência física.

Resolvo pesquisar na internet sobre a cultura brasileira no mundo. Em poucos minutos, tudo se torna claro. Infelizmente, os estrangeiros estão tendo contato apenas com uma parte da nossa cultura. Verifico as agendas culturais dos eventos brasileiros no exterior e não me sinto representada. O Brasil não é feito apenas de samba, futebol, favelas, tribos indígenas, mulher pelada e coco verde.

Aqui no Brasil também produzimos boa música tanto popular como erudita, artes plásticas de altíssima qualidade, ótima gastronomia e excelente literatura de nível internacional. Mas quando visitei as livrarias da Europa, não encontrei nosso belo trabalho em destaque por lá. O único autor brasileiro que realmente vende fora do país é o Paulo Coelho, que por coincidência ou ironia, jamais usou o cenário nacional para ambientar suas histórias. 

Uma amiga francesa me diz que não sou uma brasileira típica. Fico tentando compreender o que ela quer dizer com isso. Sou uma mulher culta, bem educada, viajo muito, leio muito, gosto de boa gastronomia, de arte impressionista, visito museus, escuto ópera e falo inglês fluente. Mas todas essas minhas características foram adquiridas aqui mesmo, no Brasil. Não sou rica, não fui educada na Suíça e só conheci a Europa aos trinta e três anos de idade. Portanto, tudo o que sou, devo ao Brasil.

Mas a qual Brasil? O Brasil responsável por minha erudição não aparece nos sites internacionais. Trata-se de um Brasil que o mundo desconhece, porque não é suficientemente étnico ou exótico o bastante para agradar aos turistas e investidores ávidos por uma grande atração.

Minha educação é globalizada porque nasci e cresci num país gigantesco e riquíssimo em diversidade cultural. Aqui no meu Brasil eu frequento restaurantes italianos, faço compras no bairro japonês, visito exposições de arte espanhola, assisto a shows de música americana, vou a livrarias e aprecio também uma boa feijoada baiana. Minha brasilidade é genuína, pois sou bisneta de índia com português, o que me permite falar com bastante propriedade sobre esse mesmo Brasil que o estrangeiro desconhece.

O Brasil não é um país perfeito. Temos problemas gravíssimos como diferenças socioeconômicas, escândalos de corrupção, falta de segurança, déficit em educação, descaso com a saúde, fome e miséria. Mas esse não é o quadro completo. Há no Brasil muita gente culta, bem educada, bem informada sobre os acontecimentos do mundo, responsável e comprometida em realizar um bom trabalho.

Está na hora dos países estrangeiros se aproximarem desse outro Brasil. Do meu Brasil. Do Brasil de milhares de pessoas como eu, que não escutam funk carioca, não saem pelados no carnaval, não jogam futebol descalço, não traficam droga no morro, não assaltam e nem se prostituem, como o nosso cinema nacional insiste em caricaturar. Está na hora do mundo conhecer outro tipo de autênticos brasileiros, orgulhosos do país que lhes deu boa educação, oportunidades e excelente cultura.

Da próxima vez que visitar a Europa, gostaria de ouvir a seguinte frase dos guardas da alfândega: Brasileira? Bem que desconfiei!
 

Tamara Ramos é uma das escritoras brasileiras mais inovadoras do cenário literário contemporâneo. É autora dos livros  “Um neurótico no divã”, “Um tango para Alice”, “Irina Bloom”, “Fiona e o jardim secreto “ e “ Cabeça de Artista”. A escritora representou oficialmente o Brasil no Salão do Livro de Genebra, em 2013. Suas obras são premiadas no país e um de seus livros teve os direitos adquiridos por uma grande produtora de cinema do Brasil.

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