sexta-feira, 21 de setembro de 2012

MARINHA DO BRASIL, SILÊNCIO!



Neste último sábado perdi uma pessoa importantíssima para mim: o Comandante Renato Padilha, meu tio. Renatão, como eu o chamava, marcou profundamente a minha vida. Eu tinha apenas nove anos quando ele entrou para nossa família e sempre adorei sua companhia.

Como comandante da Marinha ele mudava muito, e minha férias estavam sempre programadas para a cidade onde ele e minha tia estavam. Aos 12 anos de idade comecei a fazer as malas sozinha e segui-los Brasil à fora. Foram férias perfeitas no Rio de Janeiro, Brasília e Vila Velha. Tenho tantas lembranças e histórias para contar que não caberiam neste blog. Lembro-me de sentar sozinha no escuro com seus discos passando horas a ouvir Abba, Carole King e Beatles.  

Lembro-me das festas da Marinha em Niterói regadas a camarão e muita risada. Há uma especial onde Renato deixou o cabelo crescer e botou um brinco pra provocar os companheiros. Lembro-me dos passeios pelo Clube Piraquê (RJ) e do dia passado nas cachoeiras de Itiquira (segundo ele Titiquira, pois ele detestou!).

Lembro-me das caipirinhas mágicas que ele fazia que vez por outra me punham em coma alcóolico! E também havia os churrascos, e os muitos amigos e a música tocando alta.

Lembro-me de momentos importantes e decisivos onde precisei mesmo da sua ajuda. Graças ao Renato matriculei-me no curso de Direito, pois na época eu nem tinha dinheiro para estudar. Ele sempre me chamava num canto e dizia: - Está precisando de alguma coisa? Seja lá o que for conta comigo, está bem? Saiba apenas que eu não tenho bola de cristal para adivinhar, por isso me diga!

Neste final de semana foi muito duro vê-lo imóvel, desprovido de vida e eternamente distante. Parecia mentira. Todo mundo que estava lá se emocionou e as lembranças deviam estar invadindo o pensamento de cada um dos presentes. 

Renato adorava a vida. E eu sempre ficava impressionada de ver o quanto gostava de estudar. Ano passado, aos 64 anos, formou-se em Engenharia Ambiental e foi o paraninfo da turma. Fez o curso todo à distância, fazia provas mensais em Vitória, e fez questão absoluta de estar presente na formatura que aconteceu no RS.

Lembro-me de nossas discussões políticas e jurídicas à mesa do almoço. Ele ficava furioso quando ouvia minha defesas criminais e dizia que um dia um bandido me pegava! rsrs

E jamais irei esquecer sobre suas teorias de vida. Renato era um mestre em viver a vida. Ajudava todo mundo sem contar nada a ninguém. Era o anti-religioso mais religioso que já conheci na vida!

No enterro vi suas filhas chorarem: Maíra, Maria Emília e Isabela Maria. Meninas que aprendi a amar como se fossem minhas irmãs. Afinal, somos todos parte da enorme  família do Comandante Padilha. Ele se foi cedo demais, mas nós  estaremos juntas reverenciando para sempre a sua memória.

Gostaria de compartilhar com vocês o discurso de paraninfo que ele proferiu na sua formatura:

"Meu primeiro conselho: Não paute sua vida, nem sua carreira, pelo dinheiro. Ame seu ofício com todo o coração. Persiga fazer o melhor. Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como conseqüência.

 
Meu Segundo conselho: 'Seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito'. É exatamente isso que está escrito na carta de Laudiceia.

Meu terceiro conselho: Eu digo: trabalhem, trabalhem, trabalhem. De 8 às 12, de 12 às 8 e mais se for preciso. Trabalho não mata. Ocupa o tempo. Evita o ócio (que é a morada do demônio) e constrói prodígios. Muitos de seus colegas dirão que você está perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas, mas o tempo (que é mesmo o senhor da razão) vai bendizer o fruto do seu esforço, e só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão.

E isso se chama SUCESSO!" 
 
Renato Padilha

2 comentários:

patricia calhau disse...

Amei. Um homem interessante.!!! bjs

Tamara Ramos disse...

Obrigada Patrícia, ele era mesmo uma pessoa incrível. Todo mundo gostava dele de verdade. Sempre muito bem humorado e disposto a ajudar os amigos. Vai deixar muita saudade.