domingo, 23 de setembro de 2012

BETTANY HUGHES E A PAIXÃO PELO CONHECIMENTO




Navegando pelo Youtube em busca de documentários históricos descobri por acaso o trabalho da historiadora britânica Bettany Hughes. Infelizmente, não há no youtube nenhum de seus vídeos com legenda ou tradução para o português, por isso se faz necessário a compreensão do inglês para acompanhar sua fascinante jornada pelo mundo antigo.

Bettany passou quinze anos pesquisando a fundo a vida de Helena de Tróia (este livro está disponível em português = "Helena de Troia: Deusa, Princesa e Prostituta"; Editora Record, 2009) e de várias mulheres famosas do mundo antigo.  Tanto seus livros como seus documentários são extremamente fascinantes e nos levam a viajar por um universo vasto de cultura e conhecimento.  
  
Em um programa especial para a TV Britânica, Bettany Hughes revela que quando montou um projeto piloto com documentários históricos para a TV, a reação dos diretores foi péssima e ela teve que ouvir os seguintes absurdos de tais produtores:

1) Ninguém está interessado em assistir documentários sobre História na TV;
2) Ninguém vai gostar de ver uma mulher, e ainda por cima jovem, apresentando esse tipo de programa, e
3) Vivemos num mundo moderno, quem se importa com o que passou?

Senti uma simpatia instântanea por Bettany Hughes quando ouvi sua confissão. Hughes é uma amante do conhecimento, assim como eu, e não há outra forma de se acessar o conhecimento que não seja por meio de leitura e reflexão. Bettany Hughes acredita que a base para o pensamento futuro está fundada no conhecimento do passado. Desprezar milênios de ciência, estudos e avanços humanos é, no mínimo, um desperdício. Quem tem como base a sabedoria acumulada pelos estudiosos e intelectuais do passado não precisa começar do zero a plantar erudição.

No Brasil apenas 50 % da população pode ser considerada leitora. Entre os 50 % de leitores a média de leitura no país não ultrapassa a média de quatro livros anuais. Em primeiro lugar, no topo da lista dos quatros livros mais lidos, está a Bíblia. Isso mostra  claramente o quanto nosso Brasil está empobrecido. É por causa da falta de leitura e conhecimento geral, por falta de reflexão e de filosofia e por falta do hábito de contato com a literatura internacional que o brasileiro não avança em cidadania.

Não é possível que ninguém se importe ao ver nossas estradas esburacadas, nosso índice de violência altíssimo, nossa falta de bons modos verbais, nossa limitação de pensamento, nossa pobreza de argumento, nossa paixão  vergonhosa pela cervejinha, futebol, mulher pelada e  carnaval. Somos uma nação de pobres coitados iludidos com discursos petistas de progresso e enriquecimento. 

Num país onde os professores não lêem, e também não conseguem compreender a importância da leitura e da literatura para a formação do cidadão, o que se pode esperar?

Outro dia ouvi um dos maiores absurdos da minha vida. Ouvi que é muito difícil implantar aulas de incentivo à leitura nas Universidades porque a leitura de clássicos e contemporâneos é pouco prática e não contribui para o desenvolvimento de cursos considerados técnicos. Por cursos técnicos entenda-se: Direito, Engenharia, Jornalismo, Ciências Sociais e mais uma gama infinita de possibilidades que meu leitor ousar lembrar.

Parece que as Universidades de hoje não acreditam que o profissional necessite ser um homem e cidadão educado, culto, letrado e conhecedor das mais diversas formas de arte, independente da profissão que exerça. Literatura ajuda a fazer pensar, instiga a reflexão, desenvolve o bom senso, diminui preconceitos, refina o  homem, evita guerras, amplia a mentalidade, abre portas e ajuda a cruzar fronteiras. Quem lê os clássicos russos, alemães, ingleses, franceses, portugueses e italianos compreende que a condição humana iguala a todos num nível comum. Entende que nacionalidade não aumenta os anos, não impede a morte, não deixa ninguém mais rico ou melhor que ninguém. Só quem estuda o ser humano compreende a suas necessidades, suas fraquezas, destrezas, limitações e ambições. 

Um juiz, advogado, médico ou engenheiro que não conheça nada sobre o conhecimento humano será um profissional medíocre. Não trará nada de novo ao mundo, não transcenderá nem ascenderá.  Um arquiteto conhecedor dos clássicos e da arquitetura do mundo antigo enriquecerá as ruas com seu trabalho de arte. Um advogado conhecedor de filosofia e literatura engolirá qualquer juiz despreparado. Um médico conhecedor  da arte curandeira da antiguidade não cuidará de um doente tratando apenas de seus  pedaços.   

Bettany Hughes sofreu para conseguir convencer os "grandes" diretores televisivos da importância de seu trabalho. Eu sou uma escritora brasileira tentando despertar a paixão por livros num país de iletrados. Somos duas sonhadoras descaradas correndo atrás de uma ilusão.

Isso tudo me remete aos anos universitários onde fui desencorajada pelos meus próprios professores de ler o Leviatã na íntegra ou O Príncipe de Maquiavel.  Ou quando fui dispensada (não só eu como a classe inteira) das aulas de filosofia jurídica porque a professora responsável pela matéria não conseguia encontrar utilidade prática nos temas das aulas que ensinava. 

Graças a meu espírito naturalmente filósofo e inquiridor não dispensei nem Leviatã e nem Maquiavel. E por causa de minha rebeldia, hoje conheço um pouco mais a fundo a alma humana.

Ler é exercitar ao máximo o intelecto. É usar integralmente a  faculdade da inteligência da qual somos todos dotados. Quem muito lê, bem escreve. Quem bem escreve,  fala melhor. Quem fala bem, é um bom articulador de palavras. Quem se comunica  bem, amplia seu espaço no mundo. Quem reconhece possibilidades, não se limita. E para quem não vê limites, as fronteiras inexistem.

Graças a minha paixão pelos livros e pela cultura do mundo sou bem recebida em qualquer lugar onde vou. Fui recebida com honras na Europa, fiz amigos da Inglaterra e da Escócia, parceiros ilustres como a National Geographic apoiaram meus projetos, sento-me à mesa com um mestre da arte macedônia, tornei-me amiga da maior psiquiatra brasileira, Dra.  Carmem  Dametto; tenho como parceiro de meu próximo livro o maior pintor argentino da atualidade, o grande Luis Cohén. Nada nem ninguém me deixa desconfortável, pois posso conversar sobre qualquer assunto. E quando o assunto trivial termina, abre-se o espaço para a arte.

Talvez um dia eu consiga vencer essa batalha e venha a motivar meus conterrâneos a buscarem eles também o tesouro do conhecimento ilimitado. Ou talvez eu siga o exemplo dos grandes filósofos e passe o resto da vida trancada numa torre escrevendo para mim mesma. A única certeza que possuo hoje é a de que uma vida rica em arte, literatura, boa música e profunda reflexão faz-me infinitamente mais feliz do que uma vida achatadinha, cambaleando pelos cantos e becos da ignorância e da mediocridade. 

Pagodinho, cervejinha, mulher pelada, futebol, fofoca de novela, livros de auto-ajuda e samba enredo de carnaval é pouco para mim. Diante das possibilidades infinitas desse mundo maravilhoso que todos nós habitamos, vou querer sempre um pouco mais.     

7 comentários:

Anônimo disse...

Ei Tamara! Meu nome é Tina, sou de Guarapari, comprei seu livro e dorei seu trabalho: Um neurótico no divã. Passei aqui para no seu blog para te visitar... agora já sou fã!! Muito bom!! Parabéns!! Bjs

Tamara Ramos disse...

Obrigada Tina! Que notícia boa! É sempre muito bom receber um feedback positivo dos leitores! Abraço grande. Tamara

ana lucia-guarapari disse...

nossa amiga , que banho de cultura , a cada dia vc me encanta na forma como escreve e descreve sua visão da condição humana , aproveita o máximo na terra da garoa que apesar da sua complexidade é maravilhos!!!!
um grande beijo

Anônimo disse...

Eu, sempre aprendendo com voce.

Adoro a forma e o que escreve.

Acabei de ler O COLAR DE VELUDO de Alexandre Dumas, e é claro que só me lembrei de voce. bjs

Ainda nao comprei PARIS É UMA FESTA. mas chego la.

Anônimo disse...

Tamara, voce botou pra quebrar neste seu texto. ADOREI. é tudo o que eu gostaria de dizer, e nao disse....bj

patricia calhau disse...


Nao sei o que acontece, o que eu escreve aparece como anonimo.

Tamara Ramos disse...

Obrigada meninas! Abraço grande! :)