sexta-feira, 3 de agosto de 2012

NIKOLAI GOGOL




"Um bom guerreiro não é apenas aquele que não perdeu a coragem numa operação importante, mas também aquele que não se aborrece no ócio, que suporta tudo e que, haja o que houver, consegue prevalecer"
Nikolai Gogol


Sempre apreciei a literatura russa, mas apenas agora descobri a arte de Gogol. E se descobri Gogol, ainda que tardiamente, foi devido à crítica de meu pai. Após ler Um Neurótico no Divã, meu pai enviou-me um e-mail dizendo que meu livro o fez lembrar "O Capote", de Nikolai Gogol. Curiosa em descobrir o porquê da comparação, fui a Estante Virtual (como sempre) e encomendei a obra do russo. Fiquei tão impressionada com o que li que quase enlouqueci. A leitura de "O Retrato" foi tão perturbadora que obrigou-me a destruir boa parte do novo conto a que estava me dedicando e me fez recomeçar outra vez, tamanho impacto que Gogol causou em mim.    

Mas por que Gogol mexeu tanto comigo? E que diabo de semelhança meu pai encontrou entre mim e Nikolai Gogol ? 

É impossível explicar. O leitor terá que encomendar a obra de Gogol e ler por si mesmo para entender a catástrofe que tal descoberta causou-me. Nikolai Gogol é simplesmente genial, e desconfio de que muitos autores que adoro beberam nesta fonte russa. Não dá para ler O Retrato sem pensar no Dorian Grey de Oscar Wilde, por exemplo. Tanto O Capote como O Retrato mexeram comigo,  mas O Retrato  causou-me maior emoção porque trata do meu próprio oficio. Se você é artista, tem que ler O Retrato! É quase como um antídoto a tudo aquilo que pode ocorrer-lhe se descuidar da essência de sua arte.

E qual a semelhança entre o meu Neurótico e O Capote de Gogol? Penso que o senso de humor, o sarcasmo e a tendência em retratar a sociedade a qual estou inserida de forma anárquica, mas só.  Definitivamente, só. Não dá para comparar meu trabalho com o dele, estou loooonge  daquele talento. E foi justamente aí que dei um nó. Como podemos  escrever qualquer coisa e achar que está bom sem antes comparar nosso trabalho ao dos grandes nomes da literatura?

Está bem, meu leitor pode dizer que isso é bobagem, que a criatividade é individual e que tudo pode ser testado e inventado de forma livre e lúdica. Ok, mas eu digo a vocês: um livro banal, escrito sem o mínimo de cuidado ou de profunda reflexão sobre o tema escolhido, não merece ser lido.  E mais: não merece ser chamado de arte. Fiquei tão radical depois que li Gogol que estou quase sugerindo a fogueira para os livros medíocres. Aliás, o próprio Gogol queimou a segunda parte de Almas Mortas após cinco anos de trabalho porque achou que ainda não estava realmente bom. As chamas impedirão para sempre que alguém, além dele, avalie se estava mesmo uma porcaria ou se era genial. Seja como for, não passou por sua autocrítica, e se ele achou que estava mal, fogo nos papéis. 

Os críticos de Gogol dizem que sua conversão religiosa (aliás, sua obsessão religiosa) atrapalhou o desenvolvimento de sua obra. Eu não sei o que pensar sobre isso, ainda não li Almas Mortas, mas seja como for, o russo era um gênio.

Em O Retrato, um artista pobre, endividado e a um dia de ser despejado de seu estúdio frio, encontra dinheiro na parte de trás de um quadro intrigante que havia adquirido numa loja de usados. O quadro estava dando sinais de ser amaldiçoado desde o momento em que entrou em casa o que estava fazendo o artista duvidar de sua sanidade. Mas com o dinheiro em mãos, tudo mudou em sua vida. O pobre e desconhecido artista publica uma matéria paga no jornal mais lido de sua cidade declarando-se  um grande pintor. Logo toda a sociedade russa começa a buscar seus serviços e um acidente, que o leva a trocar certas telas, coloca-o no topo da celebridade. O jovem pintor vende sua alma ao diabo naquele momento e tudo no livro de Gogol nos faz perder o fôlego.  Este livro é OBRIGATÓRIO a todo artista. 

Em O Capote, conhecido como a obra-prima de Gogol, vemos o autor com uma consciência política intensa, mas não diretamente declarada. O humor desconcertante de Gogol faz o leitor rir e chorar em vários momentos. A tragédia da condição humana é cômica, o que paradoxalmente, é também trágico. Gogol não discursa ou dá sermões ao leitor, ele nos cutuca de forma mais inteligente. E passa o recado eficazmente.

Para os escritores da atualidade cabe o estudo das obras dos grandes mestres da literatura para que não corram o risco de escrever páginas e páginas de textos medíocres. É como um artista contemporâneo que primeiro deve conhecer a fundo todos os meandros  da arte para, somente após isso, afrontá-la e renová-la.    

Ter acesso a obra de Gogol obrigou-me a rever a minha própria obra e ter humildade para simplesmente destruir tudo aquilo que não está realmente bom. Esta é a primeira lição que aprenderemos de professores exigentes e é melhor cumpri-la.  


BIOGRAFIA DE NIKOLAI GOGOL
Retirado da Wickipédia

Nascido na Ucrânia em 1809, Nikolai Vasilievich Gogol escreveu apenas em russo e por isso, é considerado um dos maiores escritores dessa nacionalidade.

Com vinte anos (1829), o jovem Gogol vai para São Petersburgo, onde conhece Alexandre Púchkin, o maior escritor de então, que lhe inspira devota amizade e fervorosa empatia, ideias novas para obras que ainda não tinham vindo à luz do dia, nomeadamente Noites na Herdade de Dikanka, sua obra de estreia, tendo sido publicada em 1831, obtendo Gogol o seu primeiro êxito.
Mas desde cedo revela uma personalidade complexa.

Amante fervoroso da verdade, Gogol é um homem repleto de preocupações místicas, religiosas e patrióticas. A sua obra reflecte o lado moralista das questões que dizem respeito à condição humana, trágica e inapelavelmente priosioneira na sua jaula; mas a crítica efusiva censurava com amiúde suas tentativas de fazer vingar o poder instituído e aparentemente inabalável.

Gogol não fora político, não possuía um programa de ação contra o regime, que fazia da Rússia da época um país «metade caserna, metade prisão». No entanto, a crítica não revelaria sendo o bastante para caricaturar o jovem e proeminente escritor.

Depois de estudos medíocres, este jovem de fisionomia austera deixa a Ucrânia e encontra um modesto emprego de escritório ministerial em São Petersburgo. A distância de seu país natal e a nostalgia que dela resulta inspiraram alguns dos seus escritos.
Prova desse realismo típico veio a ser a novela O Capote, cujo herói se tornara arquétipo do pequeno funcionário russo.

De fato, sua intervenção não é outra senão denunciar os vícios e abusos no interior da alma humana, humilhada e atravancada de emoções contraditórias. Em pleno desarranjo emocional, Gogól foge e recomeça viajando pela Europa.

A morte de Púchkin no ano de 1837, em um desinteressante duelo, abala profundamente Gogol. «Agora tenho a obrigação de concluir a obra cuja ideia fora do meu amigo». Referia-se, naturalmente, ao alentado texto de Almas Mortas.

De 1837 a 1843 vive em Roma. Regressa à Rússia, doente. Um misticismo religioso acentuado indu-lo a abandonar as antigas ideias liberais (como se aí residisse o que é de absolutamente condicionante) para se tornar um defensor da autocracia. Essa fase mística virá a exacerbar-se após a sua viagem à Palestina, em 1849.


A 21 de Fevereiro de 1852 Nicolau Vasilievich Gógol morre.

São-lhe concedidas cerimónias e reconhecimento únicos: seu corpo embalsamado segue insepulto por mais de um dia carregado pelos estudantes, que oferecem homenagens acaloradas em memória do grande escritor. Todos os que leram Gogol queriam ver de perto a despedida do grande autor. Está enterrado no cemitério de Novodevitchi, em Moscou.

Sua obra fez de Nikolai Gogol o maior escritor russo da primeira metade do século XIX, o verdadeiro introdutor do realismo na literatura russa, o precursor genial de todos os grandes escritores que se lhe seguiram. Como disse Dostoiévski: "Todos nós saímos de O Capote de Gógol". Toda a literatura russa, que já muito devia a Púchkin, colherá em Gógol os maiores ensinamentos.

3 comentários:

patricia disse...

Amei seu texto. Vou ler Gogol, pois nada li. Parabens!
bjs nao estou conseguindo enviar. tento novamente . bjs

Tamara Ramos disse...

Vai adorar Gogol! Sugiro que inicie com a leitura da obra "O Retrato". Abraço!

patricia disse...

Obrigada pela orientaçao. Seguirei, com certeza.
bj