quinta-feira, 2 de agosto de 2012

NIETZSCHE, GOGOL, HEMINGWAY, DOSTOIEVSKI E O DESAFIO DIANTE DOS MESTRES



Esta semana fechei-me em casa, sentei diante do computador e iniciei um novo livro (desta vez de contos) que irá concorrer a um novo concurso literário. Em todas as biografias que leio, vejo que os autores levam anos para produzirem uma obra. Cada um a seu modo  vai interiorizando as ideias, acumulando experiências e só mais tarde traduz tudo para o papel.  Escrever é maravilhoso, mas às vezes dá um pouco de preguiça começar.  A preguiça é um dos sete pecados mais comuns entre todo tipo de profissional, acho eu. Até mesmo a Madonna, rainha do perfeccionismo, assumiu que tem dias que gostaria de não levantar da cama e simplesmente não comperecer ao próprio show.

Por isso eu gosto quando tenho prazos reais para concluir uma obra. O trabalho do escritor é muito livre, criamos nosso horário, trabalhamos do jeito que nos convém, somos nossos chefes. Os concursos literários, cheio de prazos e exigências especificas (por exemplo, o tema, o número de linhas, de páginas e o prazo de entrega) são como que uma bênção pra mim. Sigo aquilo como um roteiro que me ajuda a organizar minha produção. É óbvio que há livros mais pessoais (que escrevo fora do contexto dos concursos) e que levam mais tempo de elaboração, mas isso é um outro caso. O que importa é que às vezes, sem prazos específicos, podemos ficar preguiçosos! :)

Mas muito bem, já tenho vários prazos me aguardando e comecei o processo de elaboração da trama. E é aí que o problema maior começa. A primeira coisa que faço é definir o título (sem isso não consigo contar a história) e aí passo a viver um pouco a vida dos personagens (parte do trabalho que é um pouco esquizofrênico). Escrevo, produzo,  mergulho naquele universo durante o dia todo, e quando vou dormir à noite, relaxo lendo os mestres. Os mestres.... O motivo  deste post. Os responsáveis por literalmente tirarem meu sono.

Começo lendo um pouco de Hemingway,  transito pela mente de Nietzsche, divirto-me com Gogol, tento acompanhar o pensamento pessimista de Dostoievski e me perco em meio as obras alheias. O sono  acaba. Como posso querer ser chamada de escritora? É quase uma afronta. Leio Gogol entusiasmada. Depois comparo  com Paulo Coelho e compreendo a revolta legítimia dos acadêmicos. Falta tempero em Coelho,  falta humor, falta um não sei o quê de literário. Aí descubro que escrever livros não é somente organizar palavras. 

Leio O Retrato (Gogol) com espanto. Como ele conseguiu dizer tudo aquilo daquele jeito que disse? É sublime. É moderno. É literatura da boa. Leio a Genealogia da Moral de Nietsche assombrada. Como ele pode ter pensado tudo aquilo? O cara criou uma filosofia nova, uma produção inédita e  irreverente do espírito humano. Escrever mais o quê depois daquilo? Aí, quando já são quase três da manhã e estou quase desistindo da profissão, dou uma espiadela em Schopenhauer e sinto-me mais leve. Ele diz que devemos parar de ler se quisermos escrever, pois de nada adianta entupir-nos com pensamentos alheios. Pense por si mesmo, arrisque um palpite. 

Os personagens dos meus livros começam a rodear-me. Todos querem falar ao mesmo tempo e tenho medo de ouvi-los. E se Jasper van Dick não tiver o encanto profundo de Tcharkov? E se Macha Lippens estiver aquém de Karenina? Sigo a noite comparando meus personagens com a criação dos franceses, ingleses, ucranianos e russos. Dá mesmo pra fazer teatro depois de Shakespeare?

Graças a deus o sono vem e entrego meu cérebro ao descanso de duas horas. Duas horas e já sei que vou acordar! Vinte dias sofrendo de uma maldita insônia por causa dos mestres. Eles não me deixam dormir, sentam-se na minha cama e começam a indagar-me: e então? o que tem de novo? vai mesmo seguir a nossa profissão?

Fico ali deitada e humilhada achando que nunca darei conta do desafio.  Assisto Agonia e  Êxtase sobre a aventura de Michelângelo ao pintar a Capela Sistina e percebo que até ele, às vezes, destruía tudo e começava de novo. Acordo e vou direto ao texto. Tá uma merda. Isso aqui não é Tolstoi nem Hemingway, e ambos devem estar rindo da minha cara neste momento. Apago metade do texto. Os mestres são exigentes.  Já sei que ao menos por mais trinta dias, não vou conseguir dormir.    

2 comentários:

patricia disse...

Tamara, é uma delícia ler o que voce escreve. Gosto muito mesmo!!! Como me sinto muito pequena diante de tanta sinceridade e alma no que escreve, paro por aqui. bjs
PS: Lembre de "Noites Brancas" que tanto gostei de Dostoievski.

Tamara Ramos disse...

Obrigada! Você vai achar que é mentira, mas "Noites Brancas" está ao lado da minha cama neste momento! Bjs