domingo, 8 de julho de 2012

VELHOS HÁBITOS



O que temos nós além de uma data comum no antigo calendário da cozinha?
Vou seguindo aquele velho caminho trazendo ao bolso um telefone de outro alguém. Do que sei eu a esta altura enquanto aquela melodia insiste em torturar–me? Dez dedos rápidos num violão desafinado, dois copos vazios de uísque escocês, dois filmes não vistos, cinco meses de maus tratos, uma centena de e–mails trocados e ele ainda faz parte do maldito caminho. Seria triste se não fosse exótico, se não fosse um sonho a cores que ainda me acorda no meio da noite, se não fosse um fantasma vivo. Os cabelos pretos, a roupa negra, as botas do inverno, uma centena de ideias cuspidas nos livros em série, um punhado de prêmios fazendo de mim alguém. É claro que estou feliz, como não estaria? Mas ainda assim o tempo estanca, nada acontece ao redor, e ele longe. Ouço as músicas que herdei do pequeno divórcio, toco Bob Dylan pra mim mesma, visto uma boina xadrez. É claro que está tudo errado, como não estaria? Por que lembramos apenas dos bons modos da pessoa que morre? É tão injusto cegar–se pela luz infinita de um anjo caído. Ninguém vai pro céu. Pelo menos não nesta noite. Fiz tudo o que tive vontade, não reprimi um único desejo, decepei futuras neuroses, estou sã, mas não salva. Um poema antigo escrito num papel sujo de café forte ainda guardado no bolso de trás. Um milhão de promessas esquecidas em nossas malas de viagem. Eu me lembro apenas do último adeus há dois ou três anos atrás. Ninguém pode fechar este corte estrangeiro. Somos o oposto e o mesmo de nós dois. Temos as mesmas lembranças estranhas, os medos adultos comuns às crianças, os traumas e os defeitos dos nossos pais. Fui me declarando assim de graça pra aquele que passa esperando que mais alguém passe além de você. Mas não havia outro trem na nossa estação. Perdemos o bilhete que nos levava sempre ao encontro de nossa oposição. Ainda posso sentir o cheiro forte de uísque. Ainda posso cantar a nossa música sem os acordes do seu violão. Ainda posso encarar os dias de lutas sem achar que é maldição. Nada, nada, nada. Nada mais por hoje. Nada de novo amanhã. Você sabe o quanto erramos. Ambos sentimos muito, perdão.

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