domingo, 22 de julho de 2012

VALENTE: O ARQUÉTIPO DE ATALANTA NUMA PRINCESA MODERNA



Como escritora tenho pouco preconceito com relação aos filmes que escolho assistir. Com exceção dos filmes de guerra, comédias infames e gênero de terror, gosto de quase tudo. Quando a Disney, em parceria com a Pixar, anuncia um filme novo fico doida por um ingresso, entro no cinema feliz da vida e sempre me deixo levar pra qualquer mundo de ficção maluco que os diretores inventam para nós. 

Quando me aventurei a escrever livros infanto-juvenis a primeira coisa que fiz foi ir a locadora atrás da minha casa e alugar tudo o que eles tinham à disposição: de Harry Potter a Coração de Tinta passando por Shrek e Robin Wood, sem medo do ridículo. E confesso que me diverti tanto quanto me divirto em minhas saídas noturnas acompanhada de pessoas da minha idade. :) 

O que tenho percebido nos filmes atuais da Disney é que o ideal de princesa pura, encantadora e paciente diante da espera pelo príncipe encantado, morreu. Em Enrolados (Tangle, 2010) eu já havia ficado intrigada com a perpsectiva da personagem de Rapunzel que, num ato de pura  rebeldia, corta as tranças e fica tão moderna como uma jovem parisience do século XXI. No novo filme da Disney, Valente (Brave, 2012), a história se repete.  Merida é uma princesa escocesa dona de um espírito guerreiro tão afiado que chega a derrubar todos os seus pretendentes num duelo de arco e flecha.

Quando vi esta cena em particular lembrei-me da figura mitológica grega de Atalanta, a mulher guerreira.  Atalanta nasceu mulher para o desgosto de seu pai, que aguardava um filho homem. Para compensar a suposta fragilidade de seu sexo, Atalanta assume a postura predominantemente masculina de um gladiador, moldando seu caráter ao gosto da figura paterna. Na idade de se casar, Atalanta decide que apenas se entregará ao homem que a vencer numa gincana feroz, cujos desafios jamais poderiam ser superados por homem nenhum, pois ela era mestra em todos eles. Ou seja, a masculinidade de Atalanta, por ser arquetípica, era superior a masculinidade de um homem real.

Tanto na história de Atalanta quanto na história de Merida temos um drama psicológico no confronto com a personalidade feminina: a mãe. Atalanta apresentava um ânimus exacerbado e não se identificava com nenhum aspecto feminino, sentindo  aversão pela mãe e admiração pelo pai. No conto da Disney temos algo parecido: a princesa da Escócia sente-se mais identificada com o pai troglodita, revoltando-se contra a postura superportetora e arquetípica da mãe. Este desajuste leva a um desfecho interessante quando, após ingerir uma poção mágica feita pela filha, a mãe tranforma-se em urso, um animal selvagem e indomável que segue apenas o mais puro instinto. Interessante notar que nesta reviravolta mãe e filha se reencontram uma vez que a personalidade do urso dá a mãe a possibilidade de "estar na pele" da filha no sentido mais figurado. A mãe precisa compreender profundamente esta filha para que possa haver uma real comunhão. Antes da transformação elas eram tão opostas que não havia meios de um entendimento genuíno. 

Mas quando a situação se inverte tanto a mãe passa a compreender a alma selvagem da filha, como a filha entende as razões da mãe em sua atitude protetora e zelosa. Embora seja uma história feita para crianças, estou certa de que criança alguma poderia compreender as nuances psicológicas embutidas na mensagem do filme. Quanto mais assisto aos filmes infantis, mas compreendo o trabalho incrível da Dra. Marie Louise Von Franz, cuja pesquisa sobre o material psicológico nos contos de fada é capaz de curar uma alma doente.     

Para quem gosta de psicologia há muito que se analisar no filme Valente, mas vou deixar o desafio para o meu leitor mais curioso. Além das variações psicológicas, há que se falar da beleza estética dos filmes da Disney.  Valente é uma superprodução de tirar o fôlego!  Em muitos momentos a gente esquece que está assistindo a uma animação feita em computador, pois as cenas são tão reais que parece filmagem em terreno sólido. As cores de Valente também podem ser consideradas um espetáculo à parte. Os cabelos de fogo  da personagem, contrastando com a paisagem verde das florestas da Escócia, são de uma perfeição extrema.

Outra coisa bacana, e que deve ser apreciada, é a aparência física de Merida, a princesa. Desta vez a Disney fugiu totalmente dos estereótipos criando uma personagem fora dos padrões. Os cabelos cor de fogo encaracolados e despenteados de Merida é uma atração linda e anti-convencional. Merida parece uma deusa viking ou uma sacerdotisa celta, o conjunto todo é exótico, exuberante e um bálsamo para quem está cansado das princesinhas americanas com cara de Barbie.   

Se estiver de bobeira em casa neste domingão, vá ao cinema assistir Valente.  Há também em versão 3D para os que querem uma emoção ainda mais intensa!  Vale a pena.  

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