terça-feira, 17 de julho de 2012

O PODER ATÔMICO DA LITERATURA



"A presença de um pensamento é como a presença de quem se ama. Achamos que nunca esqueceremos esse pensamento e que nunca seremos indiferentes à nossa amada. Só que longe dos olhos, longe do coração! O mais belo pensamento corre o perigo de ser irremediavelmente esquecido quando não é escrito, assim como a amada pode nos abandonar se não nos casamos com ela. "
Schopenhauer em A Arte de  Escrever, pg; 52

Escrever, antes de tudo, é um ato emocional, político e existencial.  Emocional porque é proveniente das emoções do autor, político porque a visão de mundo do autor pode influenciar mudanças na sociedade e existencial porque quando escrevemos refletimos profundamente sobre quem somos diante de nós mesmos , diante dos outros e diante da visão que a sociedade projetou na gente.

No meu curso de Escrita Criativa ensino que a literatura é uma forma de arte. Nas palavras de   Afrânio Coutinho:   a Literatura, como toda arte é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. 

A ferramenta do autor é a palavra. Somente ela possibilitará ao artista a transposição dos ideais íntimos à manifestação real, capaz de ser compartilhada por outros pensadores. E é por isso que é tão importante o hábito da leitura na rotina do escritor, porque é só por meio da leitura que ele poderá dominar a língua e todas as variações da linguagem. 

O escritor não pode ter medo de transmitir sua verdade no texto que elabora. Preconceitos, tabus, medo, apego a dogmas e regras excessivas somente limitarão o universo do autor. Se ele ficar paralisado diante de um pensamento obscuro, ele jamais compreenderá a profundidade da alma humana e terá uma obra medíocre, cheia de vacilos e sem empatia com o leitor. O autor antes de tudo é um homem, uma pessoa que conhece as  falhas e os desejos secretos da humanidade, e sendo conhecedor de tão misterioso segredo, cabe a ele estender a mão ao leitor e permitir que este extravase todas as suas limitações reais por meio da ficção do seu texto. O autor deve abrir um portal mágico ao leitor  capaz de levá-lo aos recantos escondidos de sua alma. Se o autor tiver medo de enfrentar os próprios fantasmas, não  cativará a simpatia do leitor e este não deverá perder seu tempo com ele.

Acima de tudo o autor é um observador. Ele senta no fundo da sala e observa sem fazer julgamentos. Os personagens que o autor trará à vida devem ser reflexos e partículas  daquilo que viu ou sentiu. O ser humano é o personagem mais complexo que há, nenhum ser fictício é capaz de apresentar um número maior de contradições e paradoxos. E é essa riqueza de variedade da psique humana  que deve ser usada como matéria prima para o desenvolvimento da obra do autor.     

A palavra  escrita, ferramenta principal do ofício do escritor, é uma arma afiada e mortal. Quando vemos um livro fechado em cima da mesa não percebemos o potencial atômico compactado em suas páginas. Um livro pode levar uma pessoa a mudar completamente de vida. Pode levar uma pessoa a matar ou a largar tudo e viver em santidade terrena. Quando vemos o livro fechado não enxergamos o homem que reside nele. O livro é uma fotografia exata da mente do autor. Um raio-x perfeito. Por isso dizemos que quando lemos estamos socializando com pessoas das mais diversas convicções ou crenças. 

O livro permite a imortalidade do autor. Schopenhauer (que citei no início do texto) , morreu em 1886, mas estará eternamente vivo por meio das palavras que deixou. O seu cérebro físico morreu, mas a fotografia que foi tirada dele nos dá a oportunidade de o conhecermos em seu período mais ativo por meio do seu livro.   

Como escritora entendo que a única forma de eternizarmos a nossa existência é por meio da palavra escrita. Os filhos podem morrer jovens ou podem afastar-se sem nos suceder; a construção de uma obra pode ser destruída pelas mãos dos homens ou pelo capricho da natureza, a filmagem pode envelhecer e se perder, mas a palavra, que é a manifestação e a tradução mais exata e complexa de nosso pensamento, esta se manterá eterna. E viverá sempre à mão das pessoas dispostas a viajarem num túnel do tempo infalível que nos levará ao encontro das antigas gerações.   

2 comentários:

Patricia Calhau disse...

Estou passeando pelo seu blog e adorando....tao bommmm

Tamara Ramos disse...

Que bom! As portas do blog estão sempre abertas. Sinta-se em casa!