terça-feira, 24 de julho de 2012

ERNEST HEMINGWAY: PARIS É UMA FESTA



Ontem estava lendo um livro póstumo de Hemingway e fui dormir pensando sobre a vida e os valores do artista. Trata-se  da obra PARIS É UMA FESTA (Bertrand Brasil) que foi escrito entre os anos de 1957-1960. Hemingway estava  examinando as provas deste livro quando deu um tiro na cabeça em 1961, por isso não chegou a  vê-lo publicado.  O fato de ser um livro escrito no últimos momentos da vida do escritor deu um poder maior à mensagem transmitida ali.

Quando lemos "Paris é uma festa"  temos a sensação de que  Hemingway estava nostálgico e dá até mesmo para conjecturar que talvez ele tenha cometido suicidio porque não estava aguentando a  saudade de tudo aquilo que viveu. O livro cobre o período de 1921 a 1926, quando o escritor extremamente pobre larga a carreira de jornalista nos Estados Unidos e muda para Paris em busca do sonho de tornar-se um grande literato. Em 1961, quando Hemingway  decide botar um fim na própria  vida, ele já era um autor conhecido e aclamado no mundo inteiro tendo conquistado tudo aquilo pelo que lutou (como mostra a foto acima que traz Hemingway na capa da Life). Mas talvez a jornada tenha sido mais saborosa. Como apreciador de boxe, corridas de cavalo e touradas, Hemingway gostava de lutas, e quando esta acabou,  acabou também o sentido da sua vida.

O que me deixou emocionada na narrativa de Hemingway foi sua sensibilidade diante da vida e do que realmente é importante. Ele diz que embora fosse paupérrimo (passava mesmo fome, pois não tinha dinheiro para se alimentar direito em Paris) ele não se achava pobre. Dizia que a arte o alimentava. Quem possuía o talento para  caminhar pelo mundo da arte já possuía tudo. E havia um mundo riquíssimo dentro dele que o alimentava bem. O escritor não tinha dinheiro nem mesmo para alugar livros usados na lendária livraria Shakespeare & Company de Sylvia Beach, e por isso a proprietária da casa deixava Hem (como era conhecido) levar tudo à prazo, pagando quando pudesse. Já imaginou Hemingway sem dinheiro até mesmo para alugar um livro usado? E foi na Shakespeare&Co que Hemingway leu os russos: Tolstoi, Dostoievsky, Pasternak e depois os franceses e também os novatos autores americanos com o intuito de comparar seu próprio trabalho com os de seus conterrâneos. E foi dentro daquela livraria que o maior escritor americano tornou-se grande. 

Quem assistiu Meia-Noite em Paris de Woody Allen (filme que eu recomendo quase implorando para que você assista, pois é genial) vai se sentir familiarizado com Paris é Uma Festa. O período dos Anos 20 foi a época de ouro onde os maiores nomes  da pintura e da literatura mundial tomavam vinho juntos e jogavam conversa fora nas mesas de um mesmo bar. Hemingway conviveu com Picasso, Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Gertrude Stein, James Joyce e mais duas dúzias de gênios do seu tempo. Imaginem o que significa isso para um jovem aspirante à escritor. É o cúmulo do incentivo! Hemingway sentia-se sempre desafiado a fazer o melhor porque vivia entre os melhores. Sempre acreditei que o ambiente propício transforma o homem. 

O livro Paris é Uma Festa também revela bastante sobre o ritmo de produção literária de Hemingway. Por exemplo, o escritor trabalhava à mão, usando lápis e escrevia poucas páginas por dia. No início especializou-se em contos e  achava que jamais conseguiria escrever um romance longo por causa da sua objetividade no uso das palavras. Temos ali o retrato de um autor pobre e desconhecido lutando com todas as suas forças para tornar-se alguém importante. Como escritora tenho muita facilidade em me identificar com a luta de Hemingway para ver sua obra publicada. Interessante notar que seu país de origem (EUA) o rejeitava frequentemente e seus primeiros contos só foram  traduzidos e publicados em uma revista literária alemã. Ao preço de 12 francos por conto, o jovem Hemingway mal sustentava a si mesmo, muito menos esposa e filho. Mas havia também um espírito de união entre os artistas e os mais bem sucedidos sempre se uniam para ajudar os que estavam na pior.

Para quem é fã deste período da história da arte recomendo a leitura de Paris é Uma Festa com entusiasmo. Embora cubra apenas a década de 20, sinto que a obra é a verdadeira autobiografia do escritor, porque ao que tudo indica, este foi o período que mais valeu a pena para Hemingway. É como se a essência toda de sua vida  estivesse compactada ali. Boa leitura!        

2 comentários:

Patricia Calhau disse...

Maravilhoso
!

Tamara Ramos disse...

Leia "Paris é Uma Festa" de Hemingway. É leitura obrigatória para todos os amantes da grande literatura. Bjs