quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

PRODUÇÃO EM ALTA VOLTAGEM



"Nunca existiu uma grande inteligência sem uma veia de loucura."



Ontem coloquei o ponto final em mais um livro. Toda vez que termino uma obra, especialmente no momento em que digito a palavra FIM, fico sem entender como foi que consegui. Acreditem, é uma loucura. Estamos no meio de fevereiro e já concluí duas novas obras: um livro para crianças e outro sobre a loucura. Isso mesmo, acabei de escrever um livro inteirinho sobre a loucura. E meu livro ficou tão maluco que acabou havendo uma inversão completa de valores no meu texto: quem era são ficou maluco e quem era maluco ficou são.


Já caminho neste processo de inventar histórias há anos e ainda não consigo superar o momento em que escrevo a última palavra e sou obrigada a me separar da obra. É terrível. Cada personagem criado vira meio que um amigo. Você dorme pensando neles, acorda pensando neles, conversa mentalmente com eles, sente o cheiro deles, conhece cada traço de sua personalidade e se emociona com eles como se "eles" fossem de fato alguém.


Sempre digo que o trabalho do escritor é esquizofrênico, pois ele é obrigado a sofrer de delírios e alucinações se quiser escrever. De que outra forma daria vida à um universo complexo, abstrato e totalmente inexistente?


Dessa vez meus personagens foram inspirados por pessoas reais e pelas dezenas de livros que li sobre psicanálise. Mas ainda assim, chega uma hora que os personagens puxam meu tapete e começam a impor uma forma de ser totalmente pessoal que até então não me dizia respeito. Parece loucura (e até suspeito de que seja mesmo), mas eles pulam das páginas em branco e assumem o controle de tudo, inclusive sobre o final do livro. Eu começo contando uma história que acho que é a deles, mas eles logo discutem comigo e dizem: "Mas quem é que você pensa que nós somos? Está totalmente equivocada a nosso respeito! Isso é uma fraude!" E aí, meu leitor, muito pouco me resta a fazer.


Aquele bando de gente invisível ignora por completo minhas ambições de profissional literário e fazem o que bem entendem dentro dos limites das páginas que dedico a eles. E quando eu termino fico em dúvida se inventei mesmo uma história ou se apenas relatei o que me contaram em algum lugar que nunca sei bem onde é.


Seja como for, o final de uma obra causa em mim dois sentimentos fortes e contraditórios: a vontade de descansar um pouco e a vontade de inciar outra história imediatamente. O vazio que a palavra FIM causa no escritor é tão forte quanto o senso de realização e missão cumprida pela completude da obra. É um inferno. Mas também é o céu.


Se tudo certo, meus último dois livros serão publicados ainda neste semestre. E eu espero sinceramente que eles se acalmem nas estantes e parem de me atormentar com suas exigências absurdas e completamente infundadas. Afinal, eu sou a autora da obra. Ou não?

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