segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

ANTES DO FIM DO MUNDO




Antes que o mundo se acabe quero passar vinte e cinco dias em Praga. Atenta a uma linguagem estranha, não quero entender o que ninguém diz. Quero perceber o idioma nos gestos, no sorriso, na hora marcada em frente aos quadros de Mucha. Pedir um café curto extremamente preto me fazendo entender apontado o dedo aos cabelos de alguém. Quero revirar o dicionário e me perder na sintaxe estrangeira olhando para o alto enquanto ninguém vê. Antes que o mundo se acabe quero deixar anotada a data do meu aniversário no seu Blackberry oriental. E talvez assim no dia você se lembre de olhar a agenda e ligue mais cedo para mim. E vamos caminhar juntos novamente pela beira da praia e pedir um café preto em nosso idioma para que todo mundo entenda. E aí então vamos falar sobre os últimos três anos que passaram distantes e que agora aqui de volta se fazem presente. O último gole do café vai deixar um amargo no fundo da garganta por causa das três gotas a mais de uísque. Mas depois de dois goles de água gelada os conflitos do contraste sumirão outra vez. E você vai olhar pra mim com aqueles olhos de fundo de oceano e vai dizer que no fundo já sabia o que fez. Antes que o mundo se acabe vamos dar a volta ao mundo com seu cartão de milhas. E vamos assim aos poucos percebendo as cores da vida pintadas na cidade que não são telas de arte, mas até poderiam. E quando o sino da igreja de Bruges reverberar pela cidade sombria estaremos de mãos dadas diante da catedral. E cruzaremos os dedos diante da fronte na esperança de que todos os nossos sonhos renasçam. E uma gaivota branca vai cruzar a cabeça do turista francês e vamos reconhecer o sotaque latino numa expressão de espanto. E vamos juntos saquear as livrarias e aglomerar ideias difícieis de compreender em outra linguagem. Antes que o mundo se acabe vamos entender que é melhor ficar sozinho quando a tarde cai. E vamos desejar ler em voz alta para nós mesmos como se o som da nossa própria voz bastasse. Antes que o mundo se acabe vamos pegar de novo o velho trem que nos levará para casa. E vamos atravessar as cidades sem pressa com as cabeças amarelas pousadas nas janelas. Antes que o mundo se acabe quero passar vinte e cinco dias em Praga. Atenta a uma linguagem estranha, não quero entender o que ninguém diz.

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