quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

RELENDO OS CLÁSSICOS GREGOS




Para compreender melhor os textos psicanalíticos de Freud, Reich e Jung, é necessário reler os clássicos gregos que fizeram estes mestres quebrarem a cabeça tentando decifrar o significado oculto das tragédias antigas.

Sigmund Freud era apaixonado pela peça "Édipo Rei" escrito por Sófocles. Durante anos ele leu e releu este texto antiquíssimo e a partir do insight que teve durante a leitura, Freud desenvolveu a teoria do complexo de Édipo. Para Freud todas as neuroses eram provenientes do desejo sexual primordial reprimido que é o desejo que a criança sente pela mãe. Mas lendo os clássicos gregos em nosso tempo atual, ficamos com a impressão de que os gregos tudo sabiam sobre as contradições do nosso gênero humano. Para eles não há novidade.

Esta semana reli 3 clássicos gregos: Édipo Rei, Medéia e Prometeu. Três textos escritos para a representação teatral nos palcos da antiguidade. Três obras primas complexas, cujo discurso poderia ter sido observado no nosso mundo moderno. Quando lemos os clássicos gregos passamos a compreender que nada mudou. O homem ainda é o mesmo, enredado nas suas paixões, ambição, ciúmes, tramas maléficas, mentiras e apego carnal. O interessante destes textos é que eles trazem uma sabedoria profunda e literalmente nos ensina a lidar com as variações de humor e contradições humanas. Está tudo lá. De certa forma parece que tudo foi previsto. Todos os dramas que enfrentamos hoje são meras repetições dos dramas do passado. Não há novidade alguma!



A ira de Medeia, mulher em plena crise neurótica após ter sido abandonada pelo marido, em nada difere da ira de centenas de mulheres modernas. Trocar uma esposa madura por outra mais jovem faz parte da história da humanidade. Mas durante a leitura percebemos uma sabedoria ancestral alí que se levada a sério, nos pouparia muitos problemas. O amor é finito. O desejo por novidade é maior do que o tempo de duração do amor. Se guardássemos esta lição, sofreríamos menos.

Em Édipo Rei todos os personagens tentam, em vão, escapar ao destino. Quando o oráculo informa a Jocasta que o filho que ela carrega no ventre irá matar o pai e possuir a mãe, ela manda matar a criança logo após o seu nascimento. Escapando à morte, Édipo é então levado para outra cidade e criado como filho de outros pais. Porém, quando chega à idade madura também ele recebe a mesma previsão nefasta do oráculo. Com medo de cometer parricídio e incesto ele foge da cidade e abandona os "pais". Mas a cidade que ele encontra para se abrigar é justamente a cidade que deu origem ao seu nascimento. O destino faz seus arranjos e, sem saber, ele termina por matar o pai e casar com a mãe.

O mito da maternidade também é profundamente despertado aqui. Segundo Jung, o arquétipo materno é um ideal onde todas as pessoas enxergam a figura da mãe de uma forma única. A figura materna deve refletir certas características universais, como por exemplo, ter o amor incondicional pelos filhos, cuidar, amamentar, desejar o melhor para sua prole e se santificar. É isso mesmo, a maternidade santifica a mulher! Todas as vezes que uma "mãe" entrega seu filho para adoção, ou o espanca ou o maltrata, ficamos chocados! Isso ocorre porque temos uma ideia ingênua da figura materna. Na verdade, a "mãe" é apenas uma mulher comum que pariu uma criança. Mas se esta mulher comum não tiver o instinto maternal, se não tiver a inclinação para bondade, a empatia, o equilíbrio emocional, a maturidade e a paciência necessária à criação de um filho, ela simplesmente não conseguirá atender ao padrão exigido pelo arquétipo. E isso é facilmente observado nos textos gregos. Jocasta mandou matar o filho. Medeia matou os filhos com as próprias mãos para ver o ex-marido sofrer.



Não é à toa que as peças gregas são chamadas de tragédia. Isso ocorre porque em nenhum dos textos gregos poderemos encontrar um final feliz. É mesmo uma grande tragédia o que acontece aos personagens. Atualmente esperamos sempre um final feliz nos filmes que assistimos. Isso mostra que, no fundo, somos imaturos e ainda estamos despreparados para enfrentarmos a nossa sina. Estamos sempre tentando camuflar as más intenções e adiar os finais infelizes. Mas as tragédias fazem parte da vida. Nem sempre é possível encontrar um final feliz para todas as situações.



Releiam os clássicos gregos e compreenderão um pouco mais sobre a humanidade. O sofrimento que você enfrenta hoje já foi sentido na pele pelos cidadãos da antiguidade. A leitura dos textos antigos, não só os gregos como os romanos, os árabes e os egipcios, acendem uma luz para o nosso entendimento. Quando compreendemos que tudo o que vivemos hoje é exatamente idêntico ao já vivido há 3 mil anos, entendemos que não há escapatoria. Somos uma raça complexa caminhando a passos lentos em direção à evolução. E ainda vamos errar muito. Preparem-se!

1 comentários:

patriciacalhau1@gmail.com disse...

Adorei!!! Voce está uma verdadeira psicanalista.