terça-feira, 10 de janeiro de 2012

MILAN KUNDERA: O MAIOR AUTOR TCHECO DA ATUALIDADE




"Porque as perguntas realmente sérias são apenas aquelas que uma criança pode formular. Só as perguntas mais ingênuas são realmente perguntas sérias".

(A Insustentável leveza do Ser)



Milan Kundera, nascido em 1929, na cidade de Brno, Tchecoslováquia, tornou-se uma obsessão quando eu estava morando em Portugal. Descobri sua obra tardiamente, mas me apaixonei perdida e imediatamente pela sua escrita cheia de paradoxos. Kundera é leve e denso ao mesmo tempo. Neurótico e são. Fabuloso e simplório. Imortal, mas divinamente humano.


Sua obra mais famosa, e transportada para o cinema, é "A Insustentável Leveza do Ser". O livro é belíssimo, filosófico e assustador pela humanidae sombria que apresenta. Lembro-me de ter sentido o mesmo impacto quando li pela primeira vez "O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronté. Por sinal, as duas obras despertaram em mim uma curiosidade nervosa e estranhamente familiar. Os dois protagonistas tinham o mesmo grau de perturbação egoístico que tanto nos assusta quanto fascina. Mas mesmo com toda a pompa e aclamação, só compreendi melhor Milan Kundera quando li outros livros de sua autoria. Obras perfeitamente sustentáveis pela leveza e densidade de seu próprio ser.


"A Ignorância" foi um dos livros que mais me intrigou porque fala da questão da emigração e dos sentimentos que ela desperta no desertor. Talvez pelo fato de eu estar tão longe de casa quando o li pela primeira vez, tenha havido uma conexão instantânea que me ligou à trama e gerou em mim simpatia imediata pelos personagens.


Lembro-me que era um dia frio na cidade da Régua, em Portugal, eu estava angustiada e abri Milan Kundera mais por tédio do que por curiosidade. Mas logo na primeira página, tive a impressão de que o livro falou comigo:


- O que é que ainda estás aqui a fazer?

- E onde é que eu haveria de estar? - Perguntou Irena

- No teu país!


Aquele primeiro diálogo foi como um soco no meu estômgo. Milan Kundera era um emigrado e toda a sua obra trata disso, da opção de viver longe de casa, construindo uma nova vida e uma nova identidade. Mas é estranho como nos tornamos nacionalistas quando abandonamos o ninho original. Eu nunca fui piegas, nem dramática e nem muito menos, saudosista. Todavia em Portugal era comum me encontrar ouvindo Roberto Carlos enquanto segurava um copo de cerveja numa mão e enxugava uma lágrima cretina com a outra.


Milan Kundera era um homem forte, mas isso não amenizou seu sentimentalismo e uma saudade falsa e iludida de um país que já não era mais o seu. A Kundera foi negado a cidadania dentro da própra casa, e a França então se tornou mais uma fatalidade do que uma opção.


Mas Kundera não falava apenas de saudade da pátria e de amores complicados. Kundera é um intelectual brilhante, um músico e um artista completo. Por isso tive outra susrpresa agradável quando iniciei a leitura de "Um Encontro". Estou convencida de que Milan Kundera é um grande filósofo moderno. Em "Um Encontro" Kundera trata dos assuntos mais variados, da arte de Gabriel García Marquez ao fascínio de Fellini com maestria. O livro reúne uma série de artigos curtos que impressionam novamente pela profundidade, leveza e densidade do seu pensamento. Kundera é altamente crítico, afiado, inteligente é imbatível ao traduzir suas ideias com a máxima clareza.


Tenho estado atenta à arte Tcheca e no próximo post quero apresentar o trabalho de outro artista daquelas bandas. Talvez o enfrentamento da guerra faça nascer nas almas mais sensíveis uma veia poética e filosófica mais aguçada, repleta de novos sentidos. Seja como for, não quero morrer sem ter apreciado a obra inteirinha de Kundera. Só fico satisfeita no momento em que devorar sua última linha.


Para ir mais longe acesse o site http://www.leninimports.com/milan_kundera.html

2 comentários:

Mônica L. Costa disse...

Também gosto muito dele. "A insustentável..." me parece datada, mas quando li foi uma descoberta. Comprei vários livros dele, um de contos muito bom é "Amores risíveis", e um em que ele fala sobre sua escrita é ótimo, esqueci-me do nome. Meus livros ainda estão empilhados no chão, um dia estarão em uma estante linda!
Gostei do que escreveu, do modo como escreveu, parabéns, continue. É bom ler gente inteligente.

Tamara Ramos disse...

Obrigada Mônica. A literatura é um universo à parte, e quem se perde nele por um instante, aumenta de tamanho. Fico orgulhosa de tê-la como leitora. As portas da minha casa virtual estarão sempre abertas à você! Abraço grande.